Embora eu tenha nascido numa família cristã, minha caminhada com Deus teve início, de fato, quando eu tinha quinze anos de idade. Foi num retiro de adolescentes que a “ficha caiu” – tudo fez muito sentido para mim: os meus pecados e a minha necessidade de um Salvador, o sacrifício de Jesus na cruz, a graça de Deus e tudo o mais. Eu estava tão cheio de alegria, que ela transbordava em lágrimas. Como resposta, eu entreguei a minha vida a Deus – por completo.
Desde então, tenho vivido alguns momentos bem distintos. Depois de toda a euforia do início, por exemplo, seguiu-se um período de crescimento lento (e duro, às vezes), com disciplina na leitura da Bíblia e oração. Procurava fazer essas coisas diariamente. Logo passei a conectar os personagens bíblicos de quem tanto havia ouvido falar na infância. Moisés libertou, do Egito, os hebreus, povo que teve origem em Abraão, Isaque e Jacó, que foi o pai de José (o tão comentado pelas “tias” da Escola Dominical). E Paulo, o apóstolo, só aparece no Novo Testamento! (Eu vibrava com cada nova descoberta).
Depois desse momento inicial, veio a fase da “adoração”. Aprendi que Deus queria mais do que músicas cantadas e tocadas aos domingos, na hora dos cultos – Ele queria o meu coração. Que
insight! Como eu não havia enxergado isso antes? A cada semana que passava, eu buscava mergulhar mais e mais fundo na verdadeira adoração.
Caminhando um pouco mais, descobri a necessidade de eu estar com os outros cristãos. Palavras como “comunhão” e “amor” passaram a ter um novo significado para mim. Foi nessa época que a minha vida cristã deu um salto. Eu comecei a entender que para amar alguém de verdade (com o “tipo de amor” descrito em 1 Coríntios 13) eu precisaria estar cheio do Espírito Santo. Foi então que eu aprendi o que era o fruto do Espírito – algo que não poderia vir como resultado do meu próprio esforço, mas que somente Ele poderia gerar em mim.
Seguiu-se, então, um período de aprender sobre perseverança e dependência de Deus. Eu precisaria das duas coisas se quisesse permanecer andando com Ele. De fato, acho que grande parte da mensagem dos profetas poderia ser resumida na seguinte sentença: “dependam de Deus e perseverem em servi-Lo”. (Não foi uma lição fácil, diga-se de passagem).
E o que mais me chamou a atenção foi que, ao longo de todas essas fases, os sermões na minha igreja não acompanharam o meu crescimento. A mensagem era, domingo após domingo, com raras exceções, a mesma: “tenha fé, e Deus vai lhe dar vitória”. E as “vitórias” eram das mais variadas: “vitória” no emprego, no casamento, nos estudos, na “causa na justiça”... Só não se comentava o tipo de vitória de que eu mais precisava naquele momento: vitória sobre a minha carne, sobre o pecado e sobre o Diabo.
E a fé... Bem, ela servia pra gente arrancar alguns milagres de Deus. Funcionava mais ou menos assim: Você está com alguma enfermidade? Tenha fé. Algum problema na família? Coloque a sua fé em ação. Precisando de um emprego melhor? Traga-o à existência através da fé.
Veja bem, não estou criticando essas coisas, ou afirmando que elas não sejam legítimas. Eu também oro sempre que estou doente, oro pela minha família e também por um emprego melhor. Mas creio que existam outras coisas mais profundas – que freqüentemente são deixadas de lado – dentro do Cristianismo do que as nossas necessidades. De fato, o Evangelho não existe para nos satisfazer as carências e os caprichos. Na verdade, ele não se trata de nós. O problema
desse evangelho que está sendo pregado é que ele se trata de nós, e não de Deus. Nós estamos no centro – que terrível!
Confesso que a “fé”, no meio de toda essa minha experiência, assumiu uma conotação um pouquinho negativa. “Ora”, eu pensava, “se a fé existe para eu ser curado da minha dor de cabeça, conseguir passar no vestibular ou melhorar a qualidade de vida dentro da minha casa, eu prefiro tratar de outras coisas mais profundas, como o amor, por exemplo. Não foi o próprio apóstolo Paulo quem disse que o amor era maior que a fé? (1Co 13.13) Pois então, a fé não deve mesmo ser tão importante assim.”
E sempre que, no meio de alguma pregação, aparecia a tal da “fé”, eu já franzia a testa, em meu preconceito. “Lá vem esse papo de fé e vitória”, eu pensava.
Acontece que, nos últimos dias, o que Deus mais tem falado comigo é sobre a importância da fé. Começou nas minhas férias no início do ano passado. Eu estava quase dormindo depois do almoço, quando, de repente, ocorreu-me um estalo: “Caramba! O Espírito Santo – Deus! – está nesse exato momento aqui,
dentro de mim”. É claro que eu já “conhecia” o fato desde criança, mas... era como se aquela verdade, de certa maneira, se tornasse real, palpável, naquele momento. Houve
revelação – a que eu respondi com
fé. Ela é necessária para vivermos as verdades bíblicas!
Precisamos de fé para enxergar Jesus nas nossas reuniões – bastam duas ou três pessoas para Ele estar presente. E ela é essencial também quando oramos – tudo o que ligarmos, no nome de Jesus, aqui na terra será ligado no céu. Se você quiser vencer o pecado, terá que ser por meio da fé – nós
estamos (não é “estaremos se...”, ou “deveríamos estar”: é ESTAMOS) crucificados com Cristo, mortos para o pecado. Essas realidades devem ser recebidas e vivenciadas por nós através da fé.
Tem sido um importante aprendizado. Não depender tanto do que eu vejo, nem de sentimentos... Mas isso é um outro assunto. Para outro texto.