segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Para meditar

Dia desses, peguei um bloquinho onde costumava anotar alguns pensamentos e orações, e reli uma frase que escrevi em 2006. Dizia o seguinte: “Quando mantemos puro o coração, podemos desfrutar de águas limpas”. Devo tê-la ouvido em alguma pregação, ou lido em algum lugar – não me lembro ao certo. Mas vale a pena gastar algum tempinho meditando sobre isso.
Fica aí a sugestão...

Quando mantemos puro o coração, podemos desfrutar de águas limpas.

Apenas aprendendo

Desde que tirei a carteira de motorista, minha mãe e eu temos vivido verdadeiras aventuras – uma espécie de teste para o coração dela. Temos saído juntos de carro. Com um detalhe: agora eu dirijo. E ela, ao lado, vai dando os palpites de motorista experiente: “Rômulo, não faz a curva tão aberta assim” e “Rômulo, você não acha que está parando muito próximo ao carro da frente?”.

A última vez que eu peguei no volante, por exemplo, não foi tão boa. (A quem eu quero enganar? Foi uma tragédia, um fiasco completo!) Eu havia combinado com a minha mãe de passarmos na casa da Susan, minha noiva, e voltarmos para casa. Tudo foi muito bem na ida. Eu demonstrava segurança nas curvas e até certa habilidade nas ultrapassagens. Tirei a Linha Amarela e Avenida Brasil de letra. Quando chegamos em frente à casa dela, havia uma platéia nos esperando – Susan e seus pais. Estacionei o carro na calçada e fui falar com eles – em alto estilo: rodando a chave com o dedo indicador, todo orgulhoso. Foi ali que começou a minha derrota!

Na volta, a tragédia teve início logo na partida: eu subi na calçada e quase peguei o carro que estava vindo no sentido contrário. Envergonhado, segui numa ruazinha que dava na Avenida Brasil – toda esburacada. A cada buraco em que eu nos metia, minha mãe gemia de nervoso – “meu carro... meu carro!”.

O ponto alto da minha queda se deu na Avenida Brasil, em uma das saídas para a Linha Amarela. Como eu estava na pista do meio, tive que entrar na frente de um carro para entrar na agulha. Fui embicando e... quando eu finalmente consegui entrar, o carro morreu.

Buzinas, desespero – tudo o que me lembro daquele instante.

Quando finalmente consegui sair daquela situação (o carro morreu ainda umas três vezes, no mesmo lugar), eu havia aprendido uma dura lição: sou apenas um motorista inexperiente, aprendendo a dirigir. Não sou tão esperto quanto pensava, ou tão habilidoso quanto minha pretensão me dizia que eu era. Sou apenas alguém... aprendendo. Pode soar um tanto esquisito o que vou escrever agora, mas foi um momento libertador quando finalmente a ficha caiu. Toda a minha cobrança e frustração se foram. Aceitei o fato de que não preciso ter a mesma habilidade de alguém que dirige há trinta anos. Não preciso ser um motorista perfeito.

E esta é uma lição para toda a vida – não só para o volante. Quando começo a achar que eu “estou muito bem, obrigado”, via de regra, acontece alguma coisa que me lembra que estou apenas aprendendo. Quando passo a me sentir superior aos outros, Deus permite alguma situação para eu relembrar que “não é bem assim”.

E como é bom quando isso acontece... Que liberdade descobrir que dependo de Deus para dirigir minha vida! Estou apenas aprendendo...
*
Escrevi este texto há uns três meses. Agora já estou saindo sozinho com o carro. (Mas continuo aprendendo).

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Bernoulli e a Equação de Deus

Uma das coisas legais da Engenharia é que você aprende (ou deveria aprender) a cultivar um bom senso em relação aos números. Questionamentos como “esta variável, nesta equação, para este caso que estou estudando, é relevante ou eu posso desprezá-la?” são bastante freqüentes na vida de um engenheiro. Tudo para simplificar as coisas. Por que eu vou incluir mais um termo na minha equação (que muitas vezes já é enorme!) se ele não vai fazer diferença no resultado final? Simplesmente não incluo.

Aprendi este princípio à custa de uma bolsa de monitoria. Na verdade, fui monitor, durante a graduação em Engenharia Química, da disciplina “Mecânica dos Fluidos” por três períodos consecutivos. Ao final destes períodos, surgiu um concorrente para a bolsa. O professor responsável pela matéria decidiu, então, fazer uma prova. Coisa simples. Duas questões apenas.

Bom, fui fazer a prova, e nem mesmo consegui terminar a primeira questão. Não tive tempo de sequer ler o enunciado da segunda. Não é que a primeira estivesse difícil, mas gastei muito tempo me preocupando com um termo que deveria ter sido ignorado. (Para os Engenheiros Químicos de plantão: na Equação de Bernoulli Modificada, eu poderia ter considerado a perda de carga como desprezível). Acabei perdendo a vaga!

Quando fui conversar com o professor depois da prova, levei uma bronca. “Rômulo”, ele me disse, “como você pôde perder tanto tempo numa coisa que, de fato, não influenciava em nada o resultado final? Você deveria ter se concentrado nas variáveis realmente importantes. Seu colega acabou indo melhor do que você”.

Hoje, lembrando do episódio, percebi que as palavras do meu professor, de certa forma, se parecem muito com as de Jesus: “Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas, porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho e tendes negligenciado os preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé; devíeis, porém, fazer estas coisas, sem omitir aquelas!” (Mt 23.23)

Em outras palavras, Jesus disse que, na Equação da Lei de Deus, existem três termos absolutos, fundamentais. Neles, precisamos gastar tempo, fazendo todos os “cálculos necessários” – são os “preceitos mais importantes”. Os demais precisam ser observados também, mas como em segundo plano. Os, de fato, importantes são estes três: a justiça, a misericórdia e a fé.

Pensando um pouquinho sobre o porquê destes termos serem tão importantes, descobri coisas interessantes. Primeiro, a justiça – a primeira variável da equação. A Lei de Deus começa por ela. Nos nossos relacionamentos, precisamos da justiça. Precisamos chamar o certo de certo, e o pecado de pecado.

Penso que uma das principais falhas da igreja evangélica é baixar o nível da vida cristã. Deus tem um padrão, um modelo – que, por sinal, é bem elevado. Eu diria impossível de ser vivido por nós mesmos. Para isso, Ele colocou em nós o Seu Espírito, para que, por meio dEle (e somente dessa forma), nós pudéssemos atingir essa qualidade de vida. Por essa razão, a Bíblia é repleta de instruções do tipo: “enchei-vos do Espírito” e “andai no Espírito”.

Acontece que algumas pessoas acham o padrão de Deus muito elevado (e realmente o é) e muito difícil de ser vivido (e, na verdade, é impossível) e... baixam esse padrão. Abrem mão da justiça.

Vamos pensar na moralidade sexual, só para citar um exemplo. Gostei muito do que o C. S. Lewis escreveu em seu livro “Cristianismo Puro e Simples”:

(...) muitas pessoas se sentem desencorajadas de tentar seriamente seguir a castidade cristã porque a consideram impossível (mesmo antes de tentar). Porém, quando uma coisa precisa ser tentada, não se deve pensar se ela é possível ou impossível. Em face de uma pergunta optativa numa prova, a pessoa deve pensar se é capaz de respondê-la ou não; em face de uma pergunta obrigatória, a pessoa deve fazer o melhor que puder. Você poderá somar alguns pontos mesmo com uma resposta imperfeita, mas não somará ponto caso se abstenha de responder. Isso não vale apenas para uma prova, mas também para a guerra, para o alpinismo, para aprender a patinar, a nadar e a andar de bicicleta. Até para abotoar um colarinho duro com os dedos enregelados, as pessoas conseguem fazer o que antes parecia impossível. O homem é capaz de prodígios quando se vê obrigado a fazê-los.

Podemos ter certeza de que a castidade perfeita — como a caridade perfeita — não será alcançada pelo mero esforço humano. Você tem de pedir a ajuda de Deus. Mesmo depois de pedir, poderá ter a impressão de que a ajuda não vem, ou vem em dose menor que a necessária. Não se preocupe. Depois de cada fracasso, levante-se e tente de novo. Muitas vezes, a primeira ajuda de Deus não é a própria virtude, mas a força para tentar de novo. Por mais importante que seja a castidade (ou a coragem, a veracidade ou qualquer outra virtude), esse processo de treinamento dos hábitos da alma é ainda mais valioso. Ele cura nossas ilusões a respeito de nós mesmos e nos ensina a confiar em Deus. Aprendemos, por um lado, que não podemos confiar em nós mesmos nem em nossos melhores momentos; e, por outro, que não devemos nos desesperar nem mesmo nos piores, pois nossos fracassos são perdoados. A única atitude fatal é se dar por satisfeito com qualquer coisa que não a perfeição.


A justiça é o primeiro termo – e de fato é fundamental para a vida cristã –, mas a equação não pára por aí. Se alguém ficar apenas na justiça, correrá o risco de se tornar o mais cruel dos legalistas. É por isso que a segunda (e igualmente importante) variável é a misericórdia. Devemos olhar para as pessoas ao nosso redor com misericórdia. Se você tem qualquer dúvida a respeito disso, basta olhar para a vida de Jesus. Como você acha que Ele lidava (e ainda lida) com Seus discípulos? O interessante é que Ele era misericordioso, sem abrir mão da justiça – Ele era “cheio de graça e de verdade”[1]. Por isso, Paulo nos adverte: “Revesti-vos (...) de ternos afetos de misericórdia”[2].

Há tanto o que se falar sobre a misericórdia! Basta pensar em Jesus liberando a mulher adúltera de um apedrejamento, entrando na casa de um publicano, tocando em um leproso, transformando simples pescadores em pescadores de homens... enfim, nos salvando de uma vida de pecado.

Para fechar a Equação, a fé entra em cena. Precisamos dela nos nossos relacionamentos. Eu custei a entender isso, mas quando de novo pensei em Jesus e Seus discípulos, notei nEle uma boa dose de fé a respeito daqueles homens – Ele confiava plenamente na obra do Espírito Santo na vida deles. Por isso, Jesus não desistiu quando...

...Seus discípulos discutiam sobre quem seria o maior entre eles;
...Foi abandonado por Seus seguidores;
...Pedro O negou.

Jesus sabia, o tempo todo, quem era Deus e o que Ele poderia fazer na vida de pessoas comuns e limitadas. Ele reconhecia que Quem havia começado a boa obra naqueles homens era fiel e poderoso para completá-la. Quero ter essa mesma fé ao olhar para os meus irmãos – e para mim mesmo!

Bom, são estes os termos mais importantes da Lei de Deus – que devem reger os nossos relacionamentos. Faremos bem em não perder tanto tempo e energia com qualquer outro, que nos impeça de dar a devida atenção a estes.
*
1 - Jo 1.14
2 - Cl 3.12

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

G. K. Chesterton

Todo o intenso materialismo que domina a mente moderna apóia-se, em última análise, numa suposição; uma suposição falsa. Supõe-se que se uma coisa vai se repetindo ela provavelmente está morta; uma peça numa engrenagem. As pessoas sentem que se o universo fosse pessoal ele variaria; se o sol estivesse vivo ele dançaria. O que é uma falácia até em relação a fatos conhecidos. Pois a variação nas atividades humanas é geralmente causada não pela vida, mas sim pela morte; pelo esmorecimento ou pela ruptura de sua força ou desejo.

Um homem varia seus movimentos por algum leve elemento de incapacidade ou fadiga. Ele toma um ônibus por estar cansado de caminhar; ou caminha por estar cansado de ficar sentado imóvel. Mas se sua vida e alegria fossem tão gigantescas que ele nunca se cansasse de ir para Islington, ele poderia ir para Islington com a mesma regularidade com que o Tamisa vai para Sheerness. A própria velocidade e êxtase de sua vida teria a imobilidade da morte. O sol se levanta todas as manhãs. Eu não me levanto todas as manhãs; mas a variação se deve não à minha atividade, mas à minha inação.

Ora, para expressar o caso numa linguagem popular, poderia ser verdade que o sol se levanta regularmente por nunca se cansar de levantar-se. Sua rotina talvez se deva não à ausência de vida, mas a uma vida exuberante. O que quero dizer pode ser observado, por exemplo, nas crianças, quando elas descobrem algum jogo ou brincadeira com que se divertem de modo especial. Uma criança balança as pernas ritmicamente por excesso de vida, não pela ausência dela. Pelo fato de as crianças terem uma vitalidade abundante, elas são espiritualmente impetuosas e livres; por isso querem coisas repetidas, inalteradas. Elas sempre dizem: "Vamos de novo"; e o adulto faz de novo até quase morrer de cansaço. Pois os adultos não são fortes o suficiente para exultar na monotonia.

Mas talvez Deus seja forte o suficiente para exultar na monotonia. É possível que Deus todas as manhãs diga ao sol: "Vamos de novo"; e todas as noites à lua: "Vamos de novo". Talvez não seja uma necessidade automática que torna todas as margaridas iguais; pode ser que Deus crie todas as margaridas separadamente, mas nunca se canse de criá-las. Pode ser que ele tenha um eterno apetite de criança; pois nós pecamos e ficamos velhos, e nosso Pai é mais jovem do que nós. A repetição na natureza pode não ser mera recorrência; pode ser um BIS teatral. O céu talvez peça bis ao passarinho que botou um ovo.

Tirado de "Ortodoxia".

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

C. S. Lewis [3] sobre o orgulho

(1) O prazer do elogio não é orgulho. A criança que recebe um tapinha nas costas por fazer bem o dever de casa, a mulher cuja beleza é elogiada pelo marido, a alma salva para quem Cristo diz "Muito bem": todos ficam contentes, e têm todo o direito de ficar. Em cada uma dessas situações, as pessoas não se comprazem naquilo que são, mas no fato de terem agradado a alguém que (pelos motivos corretos) queriam agradar. O problema começa quando você deixa de pensar "Eu o agradei: tudo está bem", e substitui esse pensamento por outro: "Eu sou mesmo uma pessoa magnífica por ter feito isso." Quanto mais você se compraz em si mesmo e menos no elogio, pior você fica. Quando todo o seu deleite vem de você mesmo e você não se importa mais com o elogio, chegou ao fundo do poço. É por isso que a vaidade, embora seja o tipo de orgulho mais visível no exterior, é também o menos grave e mais facilmente perdoável. A pessoa vaidosa deseja demais o elogio, o aplauso, a admiração, e está sempre em busca dessas coisas. É um defeito - mas é um defeito quase infantil e (estranhamente) bastante modesto. Demonstra que a pessoa não está inteiramente satisfeita com a admiração que nutre por si mesma. Levando em conta a opinião alheia, ela mostra que ainda valoriza um pouco as outras pessoas. Em resumo, ela ainda é humana. O orgulho diabólico nasce quando desprezamos tanto os outros que não mais levamos em consideração o que pensam de nós. Evidentemente, é corretíssimo, e às vezes é nosso dever, não nos importar com a opinião dos outros, mas sempre pelo motivo correto, ou seja, porque nos importamos infinitamente mais com a opinião de Deus. Já o homem orgulhoso tem um motivo diferente para não se importar. Ele pensa: "Por que devo me importar com o aplauso da plebe se a opinião dela não vale nada? Mesmo se valesse, não sou de ficar corado por causa de um cumprimento como se fosse uma mocinha em seu primeiro baile. Não; sou dono de uma personalidade adulta e integrada. Tudo o que fiz foi para satisfazer meus próprios ideais - ou minha consciência artística — ou minha tradição familiar - ou, resumindo, porque Eu Sou O Tal. Se a turba gosta ou não, o problema é dela. Ela não vale nada para mim." Dessa maneira, o orgulho plenamente desenvolvido pode até coibir a vaidade; como eu disse agora há pouco, o diabo adora "curar" um defeito menor com um maior. Devemos nos esforçar para não sermos vaidosos, mas não devemos jamais nos valer do orgulho para curar a vaidade.

(2) Dizemos, em inglês [ou em português], que um homem tem "orgulho" de seu filho, de seu pai, de sua escola, de seu regimento. Podemos nos perguntar se, nesse caso, o "orgulho" é um pecado. Acho que isso depende do que queremos dizer com "ter orgulho de algo". Com muita freqüência, essa expressão significa "ter uma calorosa admiração por algo ou alguém". Tal admiração, evidentemente, está bem distante do pecado. Mas talvez signifique que a pessoa "empine o nariz" por ter um pai ilustre ou pertencer a um regimento famoso. Isso com certeza é um defeito; mesmo nesse caso, entretanto, é melhor isso que ter orgulho de si mesmo. Amar e admirar algo exterior a nós mesmos é um passo para longe da ruína espiritual, desde que esse amor e admiração não sobrepujem o que sentimos por Deus.

(3) Não devemos julgar que Deus proibiu o orgulho porque ele o ofende, ou que a humildade nos foi prescrita por causa de sua dignidade — como se o próprio Deus fosse orgulhoso. Ele não está nem um pouco preocupado com sua dignidade. A questão é simples: ele quer que nós o conheçamos, quer se doar para nós. O ser humano e ele são feitos de tal modo que, no momento em que efetivamente entramos em contato com ele, nos sentimos de fato humildes: deliciosamente humildes, aliviados de uma vez por todas do fardo das falsas crenças sobre nossa dignidade, que só serviam para nos deixar desassossegados e infelizes. Deus tenta nos tornar humildes para que esse momento seja possível: o momento de lançarmos fora a tola e horrenda fantasia com que nos adornamos e que nos entravava os movimentos, enquanto a exibíamos por aí feito idiotas. Gostaria de ter mais experiência da humildade. Assim, provavelmente poderia falar mais sobre o alívio e o consolo de despir essa fantasia - de lançar fora esse falso eu, com todos os seus "Olhem para mim" e "Eu sou um bom menino, não sou?", todas as suas poses e falsas posturas. O mero fato de estar próximo disso, ainda que por um breve momento, é tão reconfortante quanto um gole de água fresca no deserto.

(4) Não pense que, se você conhecer um homem verdadeiramente humilde, ele será o que as pessoas chamam de "humilde" hoje em dia: não será nem uma pessoa submissa ou bajuladora, que vive lhe dizendo que não é nada. Provavelmente, o que você vai pensar dele é que se trata de um camarada animado e inteligente, que realmente se interessou pelo que você tinha a lhe dizer. Se você não simpatizar com ele, será porque sente um pouco de inveja de alguém que parece contentar-se tão facilmente com a vida. Ele não estará pensando sobre a humildade; não estará pensando em si mesmo de modo algum.

Se alguém quer adquirir a humildade, creio poder dizer-lhe qual é o primeiro passo: é reconhecer o próprio orgulho. Aliás, é um grande passo. O mínimo que se pode dizer é que, se ele não for dado, nada mais poderá ser feito. Se você acha que não é presunçoso, isso significa que você é presunçoso demais.

Tirado de "Cristianismo Puro e Simples".

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Triste descoberta

Depois desta última vez, ocorreu-me que o fracasso dos meus cortes de cabelo não se dá, ao contrário do que eu imaginava, pela falta de destreza dos cabeleireiros, e, sim, pela ruindade do meu cabelo.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Em defesa da "fé"

Embora eu tenha nascido numa família cristã, minha caminhada com Deus teve início, de fato, quando eu tinha quinze anos de idade. Foi num retiro de adolescentes que a “ficha caiu” – tudo fez muito sentido para mim: os meus pecados e a minha necessidade de um Salvador, o sacrifício de Jesus na cruz, a graça de Deus e tudo o mais. Eu estava tão cheio de alegria, que ela transbordava em lágrimas. Como resposta, eu entreguei a minha vida a Deus – por completo.

Desde então, tenho vivido alguns momentos bem distintos. Depois de toda a euforia do início, por exemplo, seguiu-se um período de crescimento lento (e duro, às vezes), com disciplina na leitura da Bíblia e oração. Procurava fazer essas coisas diariamente. Logo passei a conectar os personagens bíblicos de quem tanto havia ouvido falar na infância. Moisés libertou, do Egito, os hebreus, povo que teve origem em Abraão, Isaque e Jacó, que foi o pai de José (o tão comentado pelas “tias” da Escola Dominical). E Paulo, o apóstolo, só aparece no Novo Testamento! (Eu vibrava com cada nova descoberta).

Depois desse momento inicial, veio a fase da “adoração”. Aprendi que Deus queria mais do que músicas cantadas e tocadas aos domingos, na hora dos cultos – Ele queria o meu coração. Que insight! Como eu não havia enxergado isso antes? A cada semana que passava, eu buscava mergulhar mais e mais fundo na verdadeira adoração.

Caminhando um pouco mais, descobri a necessidade de eu estar com os outros cristãos. Palavras como “comunhão” e “amor” passaram a ter um novo significado para mim. Foi nessa época que a minha vida cristã deu um salto. Eu comecei a entender que para amar alguém de verdade (com o “tipo de amor” descrito em 1 Coríntios 13) eu precisaria estar cheio do Espírito Santo. Foi então que eu aprendi o que era o fruto do Espírito – algo que não poderia vir como resultado do meu próprio esforço, mas que somente Ele poderia gerar em mim.

Seguiu-se, então, um período de aprender sobre perseverança e dependência de Deus. Eu precisaria das duas coisas se quisesse permanecer andando com Ele. De fato, acho que grande parte da mensagem dos profetas poderia ser resumida na seguinte sentença: “dependam de Deus e perseverem em servi-Lo”. (Não foi uma lição fácil, diga-se de passagem).

E o que mais me chamou a atenção foi que, ao longo de todas essas fases, os sermões na minha igreja não acompanharam o meu crescimento. A mensagem era, domingo após domingo, com raras exceções, a mesma: “tenha fé, e Deus vai lhe dar vitória”. E as “vitórias” eram das mais variadas: “vitória” no emprego, no casamento, nos estudos, na “causa na justiça”... Só não se comentava o tipo de vitória de que eu mais precisava naquele momento: vitória sobre a minha carne, sobre o pecado e sobre o Diabo.

E a fé... Bem, ela servia pra gente arrancar alguns milagres de Deus. Funcionava mais ou menos assim: Você está com alguma enfermidade? Tenha fé. Algum problema na família? Coloque a sua fé em ação. Precisando de um emprego melhor? Traga-o à existência através da fé.

Veja bem, não estou criticando essas coisas, ou afirmando que elas não sejam legítimas. Eu também oro sempre que estou doente, oro pela minha família e também por um emprego melhor. Mas creio que existam outras coisas mais profundas – que freqüentemente são deixadas de lado – dentro do Cristianismo do que as nossas necessidades. De fato, o Evangelho não existe para nos satisfazer as carências e os caprichos. Na verdade, ele não se trata de nós. O problema desse evangelho que está sendo pregado é que ele se trata de nós, e não de Deus. Nós estamos no centro – que terrível!

Confesso que a “fé”, no meio de toda essa minha experiência, assumiu uma conotação um pouquinho negativa. “Ora”, eu pensava, “se a fé existe para eu ser curado da minha dor de cabeça, conseguir passar no vestibular ou melhorar a qualidade de vida dentro da minha casa, eu prefiro tratar de outras coisas mais profundas, como o amor, por exemplo. Não foi o próprio apóstolo Paulo quem disse que o amor era maior que a fé? (1Co 13.13) Pois então, a fé não deve mesmo ser tão importante assim.”

E sempre que, no meio de alguma pregação, aparecia a tal da “fé”, eu já franzia a testa, em meu preconceito. “Lá vem esse papo de fé e vitória”, eu pensava.

Acontece que, nos últimos dias, o que Deus mais tem falado comigo é sobre a importância da fé. Começou nas minhas férias no início do ano passado. Eu estava quase dormindo depois do almoço, quando, de repente, ocorreu-me um estalo: “Caramba! O Espírito Santo – Deus! – está nesse exato momento aqui, dentro de mim”. É claro que eu já “conhecia” o fato desde criança, mas... era como se aquela verdade, de certa maneira, se tornasse real, palpável, naquele momento. Houve revelação – a que eu respondi com . Ela é necessária para vivermos as verdades bíblicas!

Precisamos de fé para enxergar Jesus nas nossas reuniões – bastam duas ou três pessoas para Ele estar presente. E ela é essencial também quando oramos – tudo o que ligarmos, no nome de Jesus, aqui na terra será ligado no céu. Se você quiser vencer o pecado, terá que ser por meio da fé – nós estamos (não é “estaremos se...”, ou “deveríamos estar”: é ESTAMOS) crucificados com Cristo, mortos para o pecado. Essas realidades devem ser recebidas e vivenciadas por nós através da fé.

Tem sido um importante aprendizado. Não depender tanto do que eu vejo, nem de sentimentos... Mas isso é um outro assunto. Para outro texto.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Breves palavras sobre a maturidade (ou a falta dela)

Você se diria uma pessoa madura? Ou melhor: Você, em algum momento, já questionou a sua própria maturidade? Tenho feito isso constantemente nesses últimos dias. Não sei por quê. Apenas suspeito que o motivo seja justamente a minha convivência com algumas pessoas que julgo imaturas. E isso não tem qualquer relação com a idade delas. (De fato, minha maior decepção nesse sentido foi com alguém mais velho – bem mais velho.)
Aliás, ouvi recentemente (ou li, não me lembro ao certo) que “a maturidade não vem com o tempo, mas dificilmente chega sem ele”. Então, como posso acelerar o meu processo de amadurecimento?
*
“Em várias ocasiões, nossos amigos enviaram seus filhos desacompanhados para visitar-nos no Colorado. Não tendo nenhuma experiência como pai, fico impressionado com o relacionamento de mão única entre um adulto e uma criança. As crianças automaticamente pressupõem que você irá acordá-las, arrumar o quarto delas, alimentá-las, conduzi-las a lugares divertidos e pagar por tudo o tempo todo. É possível que às vezes digam “obrigado”, mas dão pouco retorno e raramente iniciam uma conversa. Para elas, os adultos existem para satisfazer-lhes todas as necessidades. A criança é, em suma, imatura.” (Retirado do livro “Oração”, do Philip Yancey).
É estranho, mas... a descrição acima poderia encaixar-se perfeitamente com alguns adultos que conheço (e comigo mesmo às vezes, para a minha vergonha).
*
“Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos corações sábios.” (Sl 90.12)
Em outras palavras: Deus, ajuda-nos a tomar caminhos, fazer escolhas, reagir às situações da vida, de maneira tal que alcancemos a maturidade.

segunda-feira, 16 de março de 2009

William P. Young

"Acho que, assim como a maior parte das nossas feridas tem origem em nossos relacionamentos, o mesmo acontece com as curas, e sei que quem olha de fora não percebe essa bênção."

Tirado de "A Cabana".

sexta-feira, 13 de março de 2009

C. S. Lewis [2]

"Amar é ser vulnerável. Ame qualquer coisa e seu coração irá certamente ser espremido e possivelmente partido. Se quiser ter a certeza de mantê-lo intacto, não deve dá-lo a ninguém, nem mesmo a um animal. Envolva-o cuidadosamente em passatempos e pequenos confortos, evite todos os envolvimentos, feche-o com segurança no esquife ou no caixão do seu egoísmo. Mas nesse esquife - seguro, sombrio, imóvel, sufocante - ele irá mudar. Não será quebrado, mas vai tornar-se inquebrável, impenetrável, irredimível."

Tirado de "Os quatro amores".

Um anjo, uma mensagem e duas respostas

Comecei a ler Lucas, na Bíblia, e duas situações me chamaram a atenção. Na verdade, foram duas visitas. Gabriel, um anjo, visitou duas pessoas num espaço de tempo relativamente pequeno. E ele levou duas mensagens bem similares: as duas pessoas teriam, cada uma, um filho.
A Zacarias, um sacerdote idoso, Gabriel apareceu quando aquele oferecia incenso no templo. A notícia de que Isabel, sua mulher estéril e também idosa, lhe daria um filho gerou muitas dúvidas em Zacarias. “Como saberei isto? Pois eu já sou velho, e minha mulher avançada em idade”, respondeu ele ao anjo. Ao que parece, o mensageiro de Deus não gostou muito da pergunta: “eis que ficarás mudo, e não poderás falar até ao dia em que estas coisas aconteçam; porquanto não creste nas minhas palavras”, disse Gabriel.
Pouco mais de seis meses depois, o mesmo anjo vem até Maria e lhe diz palavras parecidas com aquelas ditas a Zacarias. Só que com um agravante: ela daria à luz a uma criança, não sendo idosa e estéril, mas sendo virgem. A mensagem, porém, gerou em Maria uma resposta totalmente diferente. “Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavra.”
Os dois receberam mensagens parecidas de um mesmo anjo. Ele duvidou. Ela creu. Ele ficou mudo. Ela cantou. Não sei como isso funciona muito bem, mas, para Deus, o crer nEle faz toda a diferença.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Deus, eu quero ser, de fato, útil no Teu Reino!

Eu vinha fazendo constantemente esta oração: “Deus, eu quero ser mais útil no Teu Reino”. Até que percebi que, na verdade, o que eu queria dizer com isso era: “Deus, eu quero ser mais importante no Teu Reino”. Foi então que veio a resposta: “Rômulo, você será mais útil à medida que desistir de ser importante”.
Não sei se isso faz muito sentido para você, mas para mim... tem sido uma verdadeira lição.

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Armário

A casa está vazia. Não por muito tempo.
"A visita chega em meia hora. Você já arrumou o seu quarto?"
Ops! (Como as mães podem ser tão cruéis?)
Cama por fazer, papéis espalhados no chão, banco fora do lugar. Ninguém gosta de arrumar o quarto. Não tamanha bagunça.
Mas...
Para a minha alegria (e a das pessoas que eu recebo em casa), eu tenho um armário. Tudo que estiver jogado no chão, e for pequeno o bastante, vai para o armário.
Papel de bala ao lado da televisão... pro armário.
Cueca suja na cama... armário.
Garrafa de água vazia em cima da estante... bem, poderia ir para a cozinha, mas vai para o armário!
É incrível como as tarefas domésticas se tornam triviais quando se tem um armário. O único problema é a cama. (Ela é grande demais para caber no... bom, essa eu tenho que arrumar).
Ah, armários... muitos carregam um consigo.
Eles estão escondidos. Ninguém os revela. E se você perguntar sobre eles, a resposta não é sincera.
"O quê? A minha vida é um livro aberto! Não carrego segredo algum..."
E o armário é, a cada dia, alimentado.
Conflitos mal resolvidos... arquivados no armário.
Um "não" que recebeu... depositado no armário.
Palavras de maldição... apodrecendo dentro do armário.
Mágoas e mágoas... semeadas no fértil terreno do armário.
Culpa, medo, traumas... no armário.
Você já pensou no quão pesado podem ser armários cheios de lixo? Não é por nada que as pessoas andam tão encurvadas ultimamente. A face entristecida revela o interior enegrecido.
Quanta carga! Carga pesada.
Carga desnecessária.
Alguém já se ofereceu para carregar essas coisas por nós. É... na verdade, uma troca de armários.
O acordo é simples: nos livramos do nosso armário cheio de pesadas imundícies, e tomamos sobre nós o dEle...
Que é vazio...
E em forma de cruz.
*
"E [Jesus] dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, e tome cada dia a sua cruz, e siga-me." (Lc 9.23)
*
"Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e encontrareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve." (Mt 11.28-30)
***
Esse texto foi publicado em Cenas do Cotidiano de Deus, livro em que divido a autoria com Calné de Oliveira.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Auto-escola de Deus

Fui ensinado, desde criança, que a vida cristã é como sentar-se no banco carona de um carro, deixando Deus assumir o volante. “Ele dirige; você apenas descansa”, minha avó me dizia. Esta é uma visão segura e confortável, mas está apenas parcialmente correta. Na verdade, ela é incompleta: ajusta-se somente aos casos dos novos convertidos. Uma pessoa que acabou de nascer de novo deve, de fato, passar o “volante” para Deus e descansar ao lado, enquanto Ele conduz o “carro” em segurança. Ela precisa de amparo, conforto. Ainda carece de certos cuidados.
Não é o caso de alguém que já está no Caminho há mais tempo. E uma idéia assustadora me ocorreu na minha primeira aula prática, na auto-escola. Passei a primeira marcha e, assim que tirei, lentamente, o pé da embreagem e fui acelerando levemente o carro, descobri um mundo novo descortinando-se diante de mim. Um mundo perigoso, cheio de incertezas e assombros. E, ao mesmo tempo, um lugar recheado de aventuras e novas possibilidades. Lá estava eu, dirigindo um carro. Um carro de verdade, com outros carros reais ao meu lado, num ambiente regido pelas leis de trânsito e repleto de postes, cruzamentos, sinais vermelhos, amarelos e verdes. Foi excitante... E assombrosamente terrível! O perigo aumentava a cada acelerada. E eu não poderia estar mais vibrante!
Acho que essa é uma boa perspectiva sobre a nossa caminhada com Deus. Ele está ao nosso lado? Sem dúvida. Mas não, definitivamente, ao volante. Ele é como o instrutor da auto-escola.

Crianças

Interagir com uma criança não é tarefa difícil: você espera uma afirmação (qualquer afirmação) por parte dela e, a partir daí, pergunta “por quê?”, “e daí?” e “o que é que tem?”, consecutiva e indefinidamente, e pronto, o diálogo está formado.